Multiplic(ident)idade

mise-en-abimeKhaire, phíloi.

Primeiramente, gostaria de pedir desculpas pela minha ausência: passei por uma série de coisas nos últimos meses que não me permitiram organizar ideias e registrá-las tampouco. Contudo, este post é – creio eu! – o primeiro que resultará dessas experiências. Assim, espero que curtam o que tenho a compartilhar com vocês sobre Dioniso e minhas experiências “sendo Baco”.

Há tempos atrás, quando eu ainda era Wiccan e durante boa parte da minha adolescência, uma tendência que imperou na minha vida foi a de desenvolver e criar diversas identidades de acordo com as pessoas e grupos com quem me relacionava.

O que eu entendo por identidade é um conjunto de atributos, valores, crenças, desejos, medos e anseios que  se agregam formando o ser de alguém.

Originalmente, minhas identidades só se dividiam entre Juarez (meu nome civil) e Jota (o apelido que me foi dado desde poucos dias de vida pela minha mãe), e assim como elas os meus ambientes eram apenas dois: escola e casa. Juarez nunca foi um nome com o qual me relacionei bem, tão menos me identifiquei. Mas à medida que fui crescendo, integrando diferentes grupos e conhecendo a multiplicidade de “Jotas” que existiam, acabei por assumir outros nomes: entre os amigos Pottermaníacos eu era o Carlos (meu segundo nome), entre o pessoal da Wicca adotei o nome de Ilan, enquanto o Juarez e o Jota continuavam coexistindo.

Durante muito tempo, mesmo me sentindo estranho com tantas identidades, acreditei que isso era necessário: era o meu modo de estabelecer a minha identidade (e por que não minha personalidade?) junto às diferentes pessoas e grupos com os quais convivia.

Quando o tempo passou, quando resolvi deixar a Wicca para trás, e quando me voltei para o culto aos deuses helênicos, senti que não era mais hora de continuar alimentando tantas identidades: elas eram complicadas de administrar e começavam a se sentir oprimidas e acuadas por situações e locais, havia de fato um conflito interno entre meus “eus”. A solução para isso na época foi adotar um nome sob o qual eu considerasse que todas as identidades poderiam convergir: Jota Olliveira.

Exceto pelos ambientes profissionais e acadêmico, onde a formalidade impera e você não tem nenhuma identidade senão a que lhe foi atribuída num cartório, ser Jota me ajudou muito a alinhar o meu ser: os meus objetivos, meus modos de lidar com o mundo, se tornaram mais unos; eu já não precisava mais pensar em qual “máscara” usar para isso ou para aquilo, assim como não precisava cumprir a tarefa sisífica de satisfazê-las todas. Isto é, a sensação que imperava é que a unicidade era a solução.

Tempos depois de conseguir fixar tudo isso, Dioniso entra na história e me inclui em sua dança extática, me põe de frente comigo mesmo e dilacera todas as estruturas que eu havia construído, destrói a simplicidade que eu atribuí à minha vida, e a multiplic(ident)idade retorna à minha vida.

É claro que essa diversidade de seres não precisou de novos nomes (apesar da necessidade que vem surgindo de que eu assuma um nome sob o qual eu sirva a Ele): Jota foi, de fato, capaz de agregar o Juarez, o Carlos, o Ilan e ele mesmo em si. Não porque eles deixaram de existir, mas por terem se revelado como identidades que orbitam em torno da minha identidade principal.

Esse tipo de experiência, esse processo de expansão e retração, esse eterno desdobramento de si em vários “eus” é vivenciar Dioniso.  Assim como o deus é plural, tanto em nomes quanto em vivências e histórias, nós também somos vários: por mais que busquemos a estabilidade, o movimento da dança da vida – que é a dança de Dioniso – nos faz desenvolver diferentes “eus” para podermos vivenciar seus vários ritmos e – por que não?! – nossos tropeços. E esses “eus” nunca serão apenas uns ou outros, mas diversos: é isso que Dioniso faz, ele nos impele à experiência, não a uma específica, mas a diversas delas, e fazendo isso ele nos conduz também à nós mesmos, porque o que nos define não é o zero, mas o um, o dois, o plural.

Então, Dioniso me mostrou que aquilo que nos mantém íntegros (sem sentido moral algum) é o conhecimento do nosso cerne, do nosso eu profundo; e que os “eus” que orbitam em torno dele não são meras máscaras descartáveis, que podemos aposentar, guardar no fundo do baú e fingirmos que nunca usamos; elas são, na verdade, o que alimenta nosso eu profundo e permite a ele o reconhecimento de si mesmo, além de sua reconstrução e modificação.

Em suma, Dioniso é o espelho que nos desdobra num myse en abyme* por meio do qual somos capazes de nos olhar por diferentes perspectivas e, ainda assim, voltar o foco para a imagem inicial e reconhecer sua essência. Então, da mesma forma como Dioniso é o benfeitor das bacas lídias, nas Bacantes de Eurípides, ele é também o dilacerador de sua família tebana: em cada situação diante da qual o deus se encontra, ele se manifesta de uma maneira diferente, unindo diversas de suas identidades ou expressando uma em específico, mas sendo sempre e ainda Dioniso. E, assim como ele, somos vários ainda que sejamos únicos.

*Myse en abyme: duplicação infinita de uma imagem

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